Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/416

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outro logar, fóra d'esta casa a barbear com esse barbeiro, e de lhe tornar a repetir que lhe peça mercês, para vêr se acerto em um segredo que tenho imaginado n'esta casa.

Elrey fez assi, e pondo-se n'outra casa o mandou chamar, e com dissimulação, lhe disse:

— Mestre, desejo tanto de vos fazer mercês, e vejo que nunca me pedis nada; folgara que me occupasseis em alguma cousa, porque de verdade que vos tenho tanta affeição, que não haverá cousa que me peçaes que, ainda que seja uma grande parte do meu reino, vos não conceda.

O barbeiro lhe respondeu:

— Certo, senhor, que vossa alteza me offerece ha tempo mercês que não posso deixar de não lançar mão d-ellas, portanto se vossa alteza m'as quer fazer, serão para mim mui grandes, e é, que me hade fazer mercê de me mandar dar dez cruzados para pagar o aluguer de minha casa de que estou penhorado, e n'isto a receberei mui assinalada.

Se elrey de primeiro se espantou de lhe pedir sua filha em casamento, mais se espantou abatendo-se tanto que para lhe pedir dez cruzados lhe mostrava ficar em tamanha obrigação. Elrey lhe mandou dar os dez cruzados, e depois de ido fez vir diante de si o letrado que lhe havia aconselhado, e vindo diante d'elle lhe disse o que passára com o barbeiro, que deitasse juizo em tamanha differença.

O letrado respondeu:

— Vossa alteza saberá, que meu entendimento sahiu certo, e para saber a prova d'isto, mande vossa alteza abrir a terra aonde esse homem punha os pés quando estando barbeando, lhe pedia sua filha em casamento, que eu creio que n'esse logar se achará um grande thesouro, e não póde ser menos senão que pizasse com seus pés algum grande thesouro quem tinha fumos de pedir a princeza em casamento.