Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/422

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o seu thesouro, entrou na sua camara, abriu os cofres, e vendo que os sacos estavam cheios e da maneira que elle os deixára, se aquietou, porque não dava logar á mais vagarosa experiencia a pressa com que os companheiros o chamavam e o Senado o esperava. Depois que deu fim áquella obrigação, que a elle lhe não pareceu que fosse tão custosa, fechando-se de vagar no seu aposento, abriu as arcas e os sacos em que lhe parecia que estava a sua bemaventurança, e vendo o engano da areia e seixos, que dentro tinham, começou a gritar com grandes lamentações e brados, a que, primeiro que todos, accudiu o generoso velho, perguntando-lhe, que tinha? de que se queixava? e quem o offendera? — Ai de mim (disse elle), que me roubaram as riquezas que com tantos trabalhos e com tão largo discurso de annos tinha grangeadas. — Como é possivel que te roubaram (respondeu elle), se eu vejo esses cofres e sacos cheios, que parece que não podiam tirar nada d'elles, nem elles levarem mais? — Ai, triste de mim (tornou o filho), que o de que elles estão cheios, não é do ouro e prata com que os deixei, que não tem agora mais que pedras e areia sem proveito. A isto respondeu o generoso pae, sem no rosto fazer mudança: — Ah enganado filho, que importava para que estes sacos estivessem cheios de ouro fino ou de areia grossa, se a tua avareza te não deixava fazer nas obras differença d'ella? Cessaram os brados, mas não já o sentimento do filho com esta resposta, que a mim me pareceu digna de ser contada entre as mais celebres do mundo.

(Rodrigues Lobo, Côrte na Aldeia, dial. VII.)