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174. O PAGEM DA RAINHA

Teve a rainha Santa Izabel um pagem ou criado de camara, que servia de seu esmoler, e outras obras pias e caritativas em que a santa rainha de continuo se occupava; era este moço de boas partes, que foi a herança que seu pae lhe deixou, segundo conta Henrique Gran, que estando para morrer lhe disse: — Filho, a melhor herança que te posso deixar é dar-te este conselho, que sejas muito virtuoso e que ouças cada dia missa inteira e sejas muito devoto da Virgem nossa senhora. Estas e outras cousas santas lhe encommendou. N'este tempo tinha elrei Dom Diniz outro pagem muito seu privado e querido; este vendo a privança que o outro tinha com a rainha, por inveja e por mais cahir em graça delrei, determinou de lhe levantar um falso testemunho e pôl-o em mal com elrei; e foi este que affirmou que a rainha tinha uma affeição má; como o rei vivia não mui honestamente, pouco bastou logo para lhe dar credito, e assi d'ali por diante andava pensativo, triste, malenconizado, vivendo com muita desconfiança da rainha pelo que seu pagem lhe tinha dito, determinou de o matar secretamente, e sahindo aquelle dia a passear, passou por onde estavam ardendo uns fornos de cal, e chamando de parte os homens que n'elles trabalhavam, lhes mandou que a um criado da camara que elle enviaria com um recado: — se tinham feito o que elrei lhe tinha mandado? — o arrebatassem logo e o lançassem dentro no forno para que assi se fizesse em pó e em cinza, porque assi convinha ao seu serviço. Ao outro dia pela manhã mandou o pagem da rainha que fosse logo com este recado, para que os homens puzessem em execução o que lhes tinha mandado; mas nosso senhor, que nunca falta aos seus e acode aos innocentes, ordenou que em passando este moço tangessem no mosteiro de S. Francisco (que es-