Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/426

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— Já sei (disse comsigo) como emendar o erro meu.

D'ali por diante fingia que se furtava aos olhos dos domesticos para se retirar a certo aposento interior, onde tinha uma arca com muitas fechaduras, cujas chaves recatava; ali, de noite, a horas escusas, com dissimulação affectada, abria, vasava, contava e tornava a guardar, em logar de patacas, pedacinhos de louça quebrada, espreitando entretanto se fôra sentida a mesma que o desejava ser. Tambem entre a conversação deixava cahir algumas palavras prenhes, que indicavam testamento feito, ou quantidade de suffragios e esmolas, ou louvor dos que pouparam para a sua velhice ou outras similhantes. Do que tudo vieram a filha e o genro a entender que a velha tinha dinheiro escondido e logo deliberaram dar-lhe bom trato e falar-lhe com agrado e sugeição. Tanto que chegou o seu dia e passou d'esta vida, foram muito soffregos registrar o que havia na arca, suave tormento de suas esperanças, mas o que acharam entre os telhos, foi só um papel com estas palavras:

— Filhos meus, se os tiverdes, não vos esqueçaes de vós no dar-lhe estado; este desengano que tenho vos deixo, en1 logar do dinheiro que não tenho.

(Padre Manoel Bernardes, Nova Floresta de varios Apophthegmas, t. I, p. 145.




Variante

Achava-se certo pae com duas filhas capazes já de tomarem estado, e querendo dar-lh'o com mais grandeza, lhes consignou em dote quanta fazenda possuia. Suppoz que os consortes nunca deixariam de corresponder a esta liberalidade com egual gratificação provendo-o depois do que necessitasse, servindo-o e tratando-o com aquelle amor que podia prometter-se de pessoas tão pro-