Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/430

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cego e ao terceiro invite descarregou-lhe o bordão na cabeça. Gritou o rapaz:

— Porque me dais?

Respondeu o amo:

— Porque contratando nós, que comessemos egualmente estas uvas bago e bago, tu comes a trez e a quatro.

Perguntou-lhe então o moço:

— E quem vos diz a vós, que eu fiz tal aleivosia?

— Isso está claro (respondeu o cego), porque faltando-te eu primeiro no contracto comendo a pares, tu te calaste, sem me requereres tua justiça; e não eras tu tão santo, que me levasses em conta nem em silencio a minha sem razão, senão pagando-te em dobro pela calada.

(Padre Vieira, Arte de Furtar, p. 33.)




179. A VENDA DAS GALLINHAS

E menos agudo andou o outro, que talhando o preço das gallinhas a quem as vendia na feira, e levando-o a quem dizia lh'as havia de pagar, o poz em uma Egreja onde estava o padre cura confessando; e chegando-se a elle lhe pediu por mercê á puridade, se lhe queria ouvir de confissão aquelle homem, e respondeu alto que sim e que esperasse, que logo o despacharia, se deu o vendedor por satisfeito, cuidando que o mandava esperar para lhe dar o preço da compra, e teve logar o ladrão de se acolher com o furto.

(Padre Vieira, Idem, p. 276.)