Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/516

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veiu para a collecção arabe do Calila e Dimna, que foi vulgar na peninsula hispanica. D'este conto diz Max Müller, que foi conhecido em Constantinopla por uma traducção grega pelo tempo das Cruzadas, sendo espalhada pela Europa pela obra latina intitulada Directorium humanæ vitæ. Quer pela corrente arabe quer pela latina entrou elle em Portugal, como se vê pelo caracter moral do exemplo com que é referido no livro ascetico supracitado. O conto acha-se levado na corrente da transmissão litteraria e reapparece na Filosofia Morale e nos Piacevoli Notte, de Straparola[1]; mas é certo que elle teve uma migração oral, porque na collecção dos contos norricos de Asbjörnsen e Moe, traduzidos para inglez por Dasent, (Popular tales from the Norse) figura com o titulo de Mestre ladrão.[2] Acha-se na collecção mais querida da Edade media as Gesta Romanorum (Violier des Histoires romaines, cap. 132); no Decameron, de Boccacio, jornada IX, novella 3.ª; nas Facecias de Pogio, nas Cento Novelle antike, nas Novelle, de Fortini, n.º 8, e nas Novellas de Compriano.


139. — A boa andança d'este mundo. — Foi este o primeiro conto que deparámos ao folhear o Orto do Esposo, antes de termos prompta para a imprensa a nossa collecção. Encontrámos uma versão oral com algumas modificações: «O amante para obter o sim da viuva, que exige que elle traga muito dinheiro, em vez de matar o mercador faz um pacto com o diabo, que lhe apparece no caminho sob esta fórma conduzindo muitas riquezas. O pacto consiste em que lhe ha-de dar a primeira pessoa que entrar em casa quando vierem do casamento. Assim se combinou. Ao sahirem da egreja já casados todos montaram a cavallo, e o noivo montou tambem um muito

  1. Notte I, Fabula 3.ª: ha differença, porque o padre traz da feira um macho, que os ladrões teimam em chamar burro.
  2. Max Müller, Essais sur la Mythologie comparée, pag. 276 a 278.