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XLV
DA NOVELLISTICA POPULAR

A AURORA é a criança, a donzella, a orphã, a recem-nascida, a filha da feiticeira negra, velha e feia; é a Psyche que tem o marido sobrenatural; é a Melusina, ou esposa sobrenatural que abandona o marido, e a Penelope ou esposa fiel que recupera o seu marido.

A NOITE é a velha fefa e ruim, a ogresse, a madrasta que maltrata a enteada, finalmente o lobo devorador, o sacco em que é furtada a menina, ou a cova em que estão enterrados os principes.

Os DIAS são os filhos desejados que tomam fórmas monstruosas, as victimas de um voto, as crianças abandonadas, ou que tem um nascimento maravilhoso.

Os CREPUSCULOS matutino e vespertino são os dois irmãos gemeos; são os pequenos maltratados; são o irmão que mata o irmão ou o salva.

Além d’estes typos, nos costumes populares de toda a Europa conservam-se as ceremonias dramaticas da entrada do VERÃO e sahida do INVERNO, o rapto da PRIMAVERA, nas lendas do Caçador feroz, na morte do Dragão, na libertação da donzella, como Andromeda, na revivescencia do cavalleiro como Arthur, Barba Roxa ou Dom Sebastião. Nas festas religiosas é que se conserva nas fórmas cultuaes o mytho do nascimento do FOGO ou o menino, o medianeiro ou o salvador. Assim dos dois grupos de phenomenos solares e sideraes se deduzem os typos ou themas mythicos que mais persistem nos Contos populares, sendo essa tambem uma das causas da sua universalidade. Uma boa classificação novellistica é, portanto, uma synthese baseada sobre estes dados concretos. Os contos populares têm sido compilados sem nexo, por causa da sua extraordinaria complexidade, apesar de terem sido já reconhecidos os episodios mais frequentes em todos elles. Esta deficiencia tem obstado á sua apreciação. Von Hahn apresentou urna classificação descriptiva artificial, que só serve para tornar monotonos os contos colligidos segundo esse agrupamento