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XLVIII
INTRODUCÇÃO

sentido religioso e systematicamente especulativo, tornando-se lendas persistentes na phantasia popular. Assim para interpretarem os Contos muitos philologos aproximam-os immediatamente dos mythos áricos, ou agrupam em serie todas as versões conhecidas do mesmo conto para por uma simplificação dos episodios accidentaes determinarem a lenda primitiva que póde mais facilmente relacionar-se com o mytho. São errados estes dois processos; existiram outras civilisações além da árica, que fizeram contos sem dependencia de mythos, e por isso aproximal-os dos mythos vedicos é forçal-os a analogias fortuitas; quando porém o mytho se dissolveu em lenda, foi por effeito de uma revolução moral, a ruina de um culto, e portanto o mesmo mytho dá logar a muitas lendas simultaneas, sem typo unitario. Pretender achar a lenda proveniente do mytho pela comparação de muitos contos do mesmo thema, é um trabalho infructifero que a nada conduz. O conto é uma mythificação da linguagem; nasce da palavra, do epitheto, da synonimia, da homonymia, como Daphne, a aurora e o loureiro, e Byrsa, a fortaleza e a pelle de boi, sobre que se formou a lenda da edificação de Carthago. Depois de ter percorrido toda a sua evolução quer com sentido religioso, historico ou moral, intuitos que influem nos accidentes dramaticos do seu thema e na particularidade ou universalidade da sua transmissão, o Conto ou se torna um molde sobre que se adaptam novos episodios, ou acaba pela simples locução proverbial d’onde partira. Citaremos alguns exemplos portuguezes; ainda hoje se diz untar as mãos como meio de conseguir mais facilmente o que se pretende, mas ninguem se lembra do conto da Edade media d’onde esta locução deriva;[1] o anexim A fé é que

  1. O Fabliau intitula-se De la vieille que graissa la main du Chevalier (Rec. de Fabliaux, p. 142). Acha-se tambem no Democritus ridens, p. 173; nos Enfants sans Soucis, p. 258; nas Facecie, Motti et Burle da Ludov, Domenichi, p. 284; e no Moyen de Parvenir, de B. de Verville.