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XLIX
DA NOVELLISTICA POPULAR

nos salva, e não o páo da barca, ainda tem a fórma de conto na Italia;[1] o mesmo com A fé do carvoeiro.[2]

A passagem dos contos para a fórma litteraria foi na India devida á propaganda buddhica, cujas lendas moraes foram colligidas no Pantchatantra; na Grecia os

  1. Publicado por Bernoni, Veneza, 1875, ap. Gubernatis, Mythologie des Plantes, t. 1, p. 17. Este anexim portuguez é o resto de um conto, hoje totalmente esquecido em Portugal. Um conto popular veneziano narra como um individuo atacado de febre recebeu uma receita, que só ficaria curado se tomasse como remedio um pouco do páo da Cruz de Christo. O doente deu muito dinheiro ao da receita para lhe ir procurar a cruz, mas o astuto mesinheiro foi gastar o dinheiro onde quiz e trouxe um cavaco de uma barca velha, que fez ferver em uma panella, dando depois ao doente a beber um xarope. O doente ficou livre das febres, e d’ahi veiu o proverbio veneziano:

    Siropo de barcazza

    La freve descazza.

  2. Este proverbio pertence ao seculo XV; nasceu de uma anedocta popular. Conta Estanisláo Osio que o grande polemista theologo Alonso Tostado perguntára por desenfado a um carvoeiro: — Em que crês? Respondeu-lhe o pobre homem: «No Crédo.» — E em que crês mais? «No que crê a santa madre Egreja.» — E em que crê a Egreja? «Crê no que eu creio.» O carvoeiro nunca foi tirado d’este circulo vicioso. Por isso no fim da sua vida, quando perguntavam a Tostado em que cria, respondia sempre: Como o carvoeiro, como o carvoeiro. E assim ficára a phrase em proverbio entre os theologos desde o seculo XV. No nosso livro Adagiario nacional (inedito) estudamos mais detidamente os proverbios e locuções populares derivados de Contos e mesmo de Fabulas classicas. Citaremos aqui: Parirão os montes, nascerá um ratinho (Jorge Ferreira, Eufrosina, p. 27); Perolas orientaes aos porcos não as lanceis (Sá de Miranda, Obr., p. 97); Gralhas com pennas de pavão; Estão verdes (allusiva á Fabula da Raposa e das uvas); Trocar o certo pelo duvidoso {allusiva ao cão e a pósta de carne); Contar com o ovo ainda na gallinha; Mais vale magro no mato, que gordo no prato; o Conto das Trez Cidras do Amor chegou á fórma aphoristica, como vêmos pelo refrem colligido por Santillana: «Fadas malas me ficieron negra, que yo blanca era.» Muitas facecias populares tambem se generalisaram na fórma proverbial, como: Comei mangas; Gracias a mis manos, que voluntat de Dios visto avias; Quem não te conhecer que te compre, verá o burro (ou a prenda) que leva; a Manta do Diabo e Pintar a manta, etc.