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L
INTRODUCÇÃO

Contos escreveram-se com intuito artistico, foram os loci communes das escolas dos rhetoricos,[1] attingindo rapidamente a perfeição em Apuleio, e em Roma em Petronio. O Catholicismo procurando combater o polytheismo no occidente, serviu-se do processo do buddhismo, deu fórma escripta aos Contos n’esses Exemplos dos prégadores medievaes, e nas lendas agiologicas como a de Barlaam e Josaphat tirada do Lalita vistara.[2] Accidentes historicos provocaram o encontro das fontes tradicionaes populares com as eruditas; taes foram as causas da decadencia do polytheismo entre os povos indo-europeus, que abraçando o Catholicismo nem por isso esqueceram os seus mythos nacionaes, acceitando ao mesmo tempo a lição moral prégada nos Exemplos.

A entrada dos Arabes na Europa, fez com qµe se vulgarisasse a traducção do Pantchatantra, traduzindo-se do arabe para grego por Simeo Seth, para latim por João de Capua, para castelhano com o titulo de Calila e Dimna, e na epoca da Renascença para italiano, francez, inglez.[3] Com a primeira Renascença, em Boccacio, Sachetti, Gower e Chaucer, o Conto recebe a fórma litteraria que os humanistas cultivaram, já com o espirito sensual e sarcastico da epoca, já com o pedantismo moral que lhes fez esquecer a graça e ingenuidade popular; é incalculavel a somma de collecções de Novellas sobretudo nas grandes litteraturas romanicas, especialmente a italiana. Esta actividade não deixou de influir na revivescencia popular, e a necessidade de preencher um certo

  1. Ott. Müller, Hist. de la Litteratura grècque, II, 522.
  2. A Reforma, na Allemanha, tambem produziu o desenvolvimento escripto das Fabulas, como se vê pela oollecção de Burkhard Waldis, franciscano que esteve em Portugal por 1540; essa collecção, sub o titulu de Esopus, foi publicada em 1862 por Heinrich Kurz. Durante o seculo XVI (1548-1584) tivera seis edições.
  3. Max Müller, formou o schema d’esta migração das Fabulas da India para a Europa.