Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/73

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brarem como e quando é que o ali edificaram. A rainha ainda ficou mais pasmada com aquillo, e mandou o seu velho camareiro saber o que era, e quem morava ali.

O camareiro entrou no velho palacio mas ficou assombrado com o que viu por dentro; appareceu-lhe uma menina muito ricamente vestida, a quem fez as perguntas de mandado da rainha. Ella respondeu:


Diga a sua magestade

Que minha mãe me desejou,

Que foi meu pae que me teve

E nas silvas me deitou;

Uma aguia me creou,

Na caça o principe me achou,

A rainha ao poço me deitou,

Mas tres fadas me fadaram,

Para aqui me trouxeram

E eu d’aqui me não vou.


O camareiro não ficou logo com o recado na cabeça, e pediu á menina para o repetir; e ella disse então:

— Desanda tezourinha.

Caiu-lhe a lingua n’um instante; o camareiro voltou para o palacio, e só podia dizer: ló-ló-ró, ló-ló-ró. A rainha mandou lá outro fidalgo, mas tambem lhe succedeu o mesmo. Por fim foi lá o principe, e quando ouviu aquelles versos que a menina dizia, veiu dar parte á rainha, que se quiz certificar com os seus olhos, e depois deu licença para o filho casar com ella.

(Algarve.)



6. A FILHA DO REI MOURO

Um rei mouro tinha duas filhas. A mais nova queria aprender a religião e andava ás escondidas com o camarista, que a ensinava. A mais velha vendo-a uma vez sair do quarto do camarista, disse-lhe: