Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/75

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa


— Não tenhas mêdo.

E despejou o sacco do carvão, e logo se fez uma noite muito escura, com grandes trovoadas e relampagos. As tropas voltaram, e foram dizer ao rei:


Real senhor, fugimos em debandada

Com tantos raios e tamanha trovoada.


O camarista já estava perto da sua terra, e a princeza disse-lhe:

— Eu salvei-te da morte; mas agora em chegando á tua terra já te não lembras mais de mim.

Assim aconteceu. Ella com tristeza vestiu-se de viuva, e pôz uma estalagem para poder viver. O camarista convidou tres amigos, e disse-lhes :

— Havemos ir cada um por sua vez pernoitar áquella estalagem.

Foi o primeiro, e disse que desejava ficar ali aquella noite. A estalajadeira disse que sim. Elle ficou muito contente. Quando foi para o quarto, começou a despir-se e a vestir-se, a despir-se e a vestir-se e ficou n’isto até de manhã, em que já estava muito cançado. Assim que foi dia a estalajadeira, que tinha visto tudo do andar de cima, disse-lhe que se pozesse no meio da rua, porque tinha estado a fazer zombaria da sua casa. Veiu o segundo, e tambem pediu para pernoitar; levou toda a noite a despir e a vestir a camisa, sem poder parar. Pela manhã tambem foi posto fóra com igual descompostura. Veiu o terceiro; pediu para pernoitar, e ella deu-lhe licença. Quando se ia deitar, disse que tinha muita sêde:

— Pois vá ao quintal, e tire agua d’aquelle poço.

Toda a noite o pobre do homem esteve dando á nora, e só quando foi de dia é que appareceu a estalajadeira, que o fez parar e o pôz fóra, dizendo que tinha vindo fazer zombaria da sua casa. Chegou o quarto amigo, e tambem pediu para pernoitar; ficou muito contente com a