Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/76

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licença, porque os outros guardaram sempre o segredo do que lhes acontecera. Quando a estalajadeira estava deitada, disse:

— Ai que me esqueceu fechar a porta da rua.

— Vou eu fechal-a.

E toda a noite o hospede andou para cá e para lá a fechar a porta da rua, até que pela manhã estava estafado, e a estalajadeira o pôz fóra, por lhe querer quebrar a porta.

Os quatro amigos reuniram-se e contaram uns aos outros o succedido. Mas ainda assim o camarista, que era um d’elles, não se lembrava nem por nada da amante que abandonara com tanta ingratidão. Como elle estivesse para casar na sua terra, segundo o costume, tinha de dar um jantar tres dias antes do casamento ás pessoas com quem visinhava. Foi tambem convidar a estalajadeira viuva. Ella foi ao jantar. Quando estavam todos á mesa, combinou-se que cada um contaria a sua historia:

— A senhora, apesar de estar com esse desgosto, hade tambem contar o seu conto.

A estalajadeira pediu que lhe apresentassem duas tijellas. Bateu com uma na outra, e appareceram um pombo e uma pomba. E disse a pomba :

— Não te lembras quando me ensinavas a resar ás escondidas de meu pae?

Disse o pombo:

— Lembro-me.

— E não te lembras quando minha irmã disse que ia contar tudo ao pae, e que disseste: Ai que estamos perdidos?

E assim foi perguntando, e o pombo respondendo a tudo o que se tinha passado com a filha do rei mouro. Só ao fim de muitas perguntas é que os convidados começaram a reparar em circumstancias que se tinham dado com os quatro amigos, e o camarista conheceu a sua ingratidão: