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— Real senhora, eu é que sou esse esquecido; e já desfaço aqui este casamento, para receber quem por mim deixou pae e mãe e a sua terra.

(Extremadura e Algarve.)



7. AS FIANDEIRAS

Era uma mãe que tinha uma filha e só pensava em casal-a bem. Foi a casa de um mercador que vendia linho, e pediu-lhe para que lhe vendesse uma pedra de linho, porque a filha fiava tudo n’um dia. Trouxe o linho para casa e disse á filha:

— Tens de me fiar esta pedra de linho hoje mesmo, porque ámanhã vou buscar mais. Quando voltar a casa quero achar o linho todo fiado.

A pequena foi sentar-se á porta, a chorar, sem saber como obedecer á mãe. Passou uma velhinha:

— A menina o que tem, que está a chorar d’esse modo?

— O que hei-de ter! É minha mãe que quer á força que lhe fie n’um dia uma pedra de linho, e eu não sei fiar.

— Deixe a menina estar que eu lhe fio tudo se me prometter que no dia do seu casamento me hade chamar tres vezes tia.

A menina olhou para dentro de casa, e viu o linho remexido, e todo fiado. No dia seguinte a mãe foi á loja, gabou muito a habilidade da filha, e pediu outra pedra de linho para ella fiar. A pequena foi sentar-se á porta, a chorar, esperando que passasse a velhinha da vespera.

Passou uma outra:

— A menina o que tem, que está a chorar d’essa maneira?

A pequena contou-lhe as ordens que tinha recebido da mãe.