Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/79

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa


— Tenho assim o nariz, porque fiei muito, muito, e as arestas do linho pozeram-me assim.

— E eu, meu sobrinho, tenho assim os queixos, por que fiei muito, e fiquei assim por tanto riçar os tomentos.

— E eu, sobrinho, fiquei com estas corcovas por estar sempre para um canto com a roca á cinta.

O marido assim que ouviu aquillo, levantou-se e foi pegar nas rocas, fusos, sarilhos, dobadouras e tudo e atirou-os para a rua, e disse que na sua casa nunca mais se havia de fiar, porque não queria que lhe acontecessem á sua mulher taes desgraças.

(Algarve.)


8. CRAVO, ROSA E JASMIM

Uma mulher tinha tres filhas; indo a mais velha passeiar a uma ribeira, viu dentro da agua um cravo, debruçou-se para apanhal-o, e ella desappareceu. No dia seguinte succedeu o mesmo a outra irmã, porque viu dentro da ribeira uma rosa. Por fim, a mais nova tambem desappareceu, por querer apanhar um jasmim. A mãe das trez raparigas ficou muito triste, e chorou, chorou, até que tendo um filho, este quando se achou grande, perguntou á mãe porque é que chorava tanto. A mãe contou-lhe como é que ficára sem as suas tres filhas.

— Pois dê-me minha mãe a sua benção, que eu vou por esse mundo em procura d’ellas.

Foi. No caminho encontrou trez rapazes em uma grande guerreia. Chegou ao pé d’elles… «Olá, que é isso?»

Um d’elles respondeu:

— Oh, senhor; meu pae tinha umas botas, um chapeu e uma chave, que nos deixou. As botas em a gente as calçando, e lhe diga: Botas, põe-me em qualquer banda, é que se apparece onde se quer; a chave abre todas as portas; e o chapeu em se pondo na cabeça, ninguem mais