Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/81

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bora? Não sabias que isso era motivo para eu o estimar? Se cá tornar, dize-lhe para ficar, que o quero conhecer.

O rapaz tirou o chapeu, e veiu comprimentar o cunhado, que o abraçou muito. Na despedida deu-lhe uma penna, dizendo:

— Quando te vires em alguma afflicção, se disseres: Valha-me aqui o Rei dos Passaros! hade-te sair tudo como quizeres.

Foi-se o rapaz embora, porque disse ás botas que o levassem onde estava sua irmã do meio. Aconteceram pouco mais ou menos as mesmas cousas; á despedida o cunhado deu-lhe uma escama:

— Quando te vires em alguma afflicção dize: Valha-me aqui o Rei dos Peixes!

Até que chegou tambem a casa da sua irmã mais nova; achou-a em uma caverna escura, com grossas grades de ferro; foi ao som das lagrimas e soluços dar com ella muito magra, que assim que o viu, gritou:

— Quem quer que vós sois, tirae-me d’aqui para fóra.

Elle então deu-se a conhecer, e contou-lhe como achou as outras duas irmãs muito felizes, mas só com o desgosto de não poderem os seus maridos desencantar-se. A irmã mais nova contou-lhe como estava com um velho hediondo, um monstro que queria casar com ella por força, e que a tinha ali preza por não lhe querer fazer a vontade. Todos os dias o velho monstro vinha vel-a para lhe perguutar se já estaria resolvida a tomal-o como marido; e que ella se lembrasse que nunca mais tinha liberdade, porque elle era eterno.

Assim que o irmão ouviu isto lembrou-se do encantamento dos dois cunhados, e pensou em apanhar o segredo por que elle era eterno; aconselhou á irmã que fizesse a promessa de casar com o velho, se lhe dissesse o que é que o fazia eterno.

De repente o chão estremeceu todo, sentiu-se como