Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/82

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa


um grande furacão, e entrou o velho, que chegou ao pé da menina e lhe perguntou:

— Ainda não estás resolvida a casar commigo? Tens de chorar todo o tempo que o mundo fôr mundo, porque eu sou eterno, e quero casar comtigo.

— Pois casarei comtigo, disse ella, se me disseres o que é que faz que nunca morras?

O velho desatou ás gargalhadas:

— Ah, ah, ah! pensas que me poderias matar! Só se houvesse quem fosse ao fundo do mar buscar um caixão de ferro, que tem dentro uma pomba branca, que hade pôr um ovo, e depois trouxesse aqui esse ovo, e m’o quebrasse na testa.

E tornou a rir-se na certeza de que não havia ninguem que fosse ao fundo do mar, nem fosse capaz de achar onde estava o caixão, nem mesmo de o abrir, e tudo o mais que se sabe.

— Agora tens de casar commigo, porque já te descobri o meu segredo.

A menina pediu ainda uma demora de tres dias, e o velho foi-se embora muito contente. O irmão disse para ella, que tivesse esperança, que dentro em tres dias estaria livre. Calçou as botas e achou-se á borda do mar; pegou na escama que lhe deu o cunhado e disse:

— Valha-me aqui o Rei dos Peixes!

Appareceu logo o cunhado, muito satisfeito; e assim que ouviu o acontecido mandou vir á sua presença todos os peixes; o ultimo que chegou foi uma sardinhinha, que se desculpou por se ter demorado porque embicou n’um caixão de ferro que está no fundo do mar. O rei dos peixes deu ordem aos maiores que fossem buscar o caixão ao fundo do mar. Trouxeram-n’o. O rapaz assim que o viu, disse á chave:

— Chave, abre-me este caixão.

O caixão abriu-se, mas apesar de todas as cautellas, fugiu-lhe de dentro uma pomba branca.