Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/83

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Disse então o rapaz, para a penna:

— Valha-me aqui o Rei dos Passaros.

Appareceu-lhe o cunhado, para saber o que elle queria, e assim que o soube mandou vir á sua presença todas as aves. Vieram todas e só faltava uma pomba, que veiu por ultimo desculpando-se, que lhe tinha chegado ao seu agulheiro uma antiga amiga que estava ha muitos annos preza, e que lhe tinha estado a arranjar alguma cousa de comer. O Rei dos Passaros disse que ensinasse ao rapaz onde é que era o ninho onde a pomba estava, e lá foram, e o rapaz apanhou o ovo que ella já tinha posto e disse ás botas que o levassem á caverna onde estava a irmã mais moça. Era já o terceiro dia, e o velho vinha pedir o cumprimento da palavra da menina; ella, que já estava aconselhada pelo irmão, disse que se reclinasse no seu regaço; mal o apanhou deitado, com toda a certeza quebrou-lhe o ovo na testa, e o monstro dando um grande berro, morreu. Os outros dois cunhados quebraram ao mesmo tempo o encantamento, vieram ali ter, e foram com as suas mulheres, que ficaram princezas, visitar a sogra, que viu o seu choro tornado em alegria, na companhia da filha mais nova, que lhe trouxe todos os thesouros que o monstro tinha ajuntado na caverna.

(Algarve.)



9. O MAGICO

Havia n’uma terra um homem entendido em artes magicas, que nunca queria tomar criado que soubesse lêr para lhe não apanhar o segredo dos seus livros. Foi um moço offerecer-se dizendo que não sabia lêr, e assim ficou-o servindo, e leu todos os livros da livraria do magico, e quando já podia competir com elle, fugiu com todos os livros. Um dia o discipulo achou-se mestre e quiz viver das suas artes; disse a um criado que fosse á feira