Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/97

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A execução interrompeu-se ao grande barulho de uma carruagem que trazia um alto figurão, que deu ordem para parar tudo. Levou o hortelão comsigo para o paço e disse ao rei que era impossivel ter elle commettido o atrevimento de que a rainha o accusava, senão que mandasse as camareiras examinar. Assim aconteceu e a rainha é que foi deitada a uma fogueira. O encantamento quebrou-se pela constancia com que a rapariga tinha soffrido todos os tratos e o principe casou com ella por agradecido.

(Algarve.)


15. MARIA DA SILVA

Era uma vez um rei, que andava á caça, e perdeu-se no monte, quando se fechou a noite. Foi com o seu pagem pedir agasalho a uma cabaninha de um carvoeiro que vivia na serra. O carvoeiro deu logo a sua cama ao rei, e a mulher, como estava doente, ficou deitada em uma enxerga no aido. De noite ouviu o rei um grande alarido, e chóros, e uma voz que dizia:

— Esta, que agora acaba de nascer

Ainda ha de ser tua mulher;

E por mais que a sorte lhe seja mesquinha

Sempre comtigo virá a ser rainha.

O rei ficou bastante atrapalhado, e tratou de saber que horas eram. Era meia noite em ponto. Ao outro dia quando fallou com o carvoeiro, perguntou-lhe que barulho tinha sido aquelle.

— Foi uma filhinha que me nasceu; havia de ser pela meia noite em ponto, senhor.

O rei disse que queria fazer a fortuna d’aquella criança, e que lhe daria muito dinheiro se a deixasse ir com elle. O carvoeiro deixou, e o rei partiu. Pelo caminho