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DA FRANÇA AO JAPÃO

obrigando-o a lêr ou a ouvir contos moraes, mais ou menos adequados a occasião, já mandando que os delinquentes condemnem ou recompensem os protogonistas dos contos que acabão de ouvir, e, assim, os habituão a julgar e a corrigirem seos proprios defeitos.

Durante o tempo que estivemos n’esse paiz, não vimos uma só vez maltratar-se as crianças, e é, sem duvida, conservando-lhes os brios e pela influencia toda moral dos paes ou preceptores, que se deve attribuir o respeito e mesmo a dignidade, com que os japonezes, até os da mais baixa esphera social tratão-se reciprocamente.

Uma outra observação, digna de menção, é que um japonez de certa classe não se deixa governar pela colera, e quando acontece que um d’elles, em suas reuniões ou assembléas, emprega linguagem vehemente, os outros, longe de reagirem ou accompanhal-o, respondem com desdem «deixemos este homem que esquece-se do que é para descer até o bruto.»

Quando se suscitão questões entre as autoridades das cidades ou mesmo em caso de calamidade publica, os principaes habitantes reunem-se em assembléa e representão em termos brandos e humildes ao Governo do Imperador, o qual, segundo nos disserão, jamais despresou taes representações. Ao contrario, um inquerito rigoroso é ordenado, e se ia culpados são immediatamente banidos ou severamente punidos, segundo a gravidade do delicto.

Existe tambem, em algumas cidades, uma instituição municipal que deve curar, como entre nós, dos interesses de seus municipes; parece-nos comtudo, que esta assembléa apenas serve de intermediaria entre os habitantes e o Governo.

Não conhecemos um só viajante ou historiador, que desconheça os nobres sentimentos de patriotismo e de generosidade que animão o povo japonez.

Kœmpfer, que alli viveu muitos annos, não cessa de elevar as nobres qualidades, que tanto distinguem este povo dos outros seus visinhos; e já no tempo da propaganda christā, S. Francisco Xavier orgulhava-se da brandura do tracto de suas ovelhas.