que dormia e como se naō deveria esperar huma reacçaō terrivel vista a propagaçaō das suas luzes , o exemplo das Naçōes visinhas , e a passagem repentina do sentimento das anteriores , ao das presentes impressōes ? Seria preciso imitar a Natureza , que sempre progrede a passos insenciveis. Naō he isto verdade , deliciosa Seiubal , quando banhada em lagrimas , e cheia de lamentos levaste tuas humildes supplicas ao Governo , pedindo-lhe se interessasse na extracçaō dos vossos sáes , donde pendia a vossa fortuna , alliviando-os do enorme pezo de tributos com que estavaō sobrecarregados ? Naō he verdade isto Coroa do Mundo , Lisboa Nobre , quando de repente vistes teu exaltado commercio com todo o Mundo , tuas immensas riquezas , nobreza , e artes haver-se de todo extinguido : Com que coluços naō olharias tua navegaçaō encalhada , e os poucos vasos expostos á piratagem ? apezar que da interior corresse mais perigo , que da exterior. Como te houvéras pois conter ó Portugal , quando n՚outros tempos vias ao teu nome ajoelhar-se a Fama a perfumar-te a gloria com os mais fragrantes , e deliciosos perfumes , coroando-te com flores ; e de repente transformado n՚hum deserto , sem nome , sem gloria , sem honra , e lastrado de mirrados esqueletos ? E como continuarieis o soffrer , excelsos , e magnanimos Portuguezes , que sendo hontem o assombro do Mundo , fósseis hoje o ludibrio de huns poucos de Egoistas ? Dizei degenerados Portuguezes , onde no vosso egoismo , e systema ambicioso estava a felicidade , a gloria , e honra que reservaveis ao nosso adorado Monarcha , e a seu querido povo ? Pertendieis arrancar deste modo os ultimos momentos de vida aos vossos honrados irmāos , e sobre hum monte de ruinas , que n՚outr՚ora tinha sido o modello das virtudes , a gloria da humanidade , o assombro , e terror dos soberbos , e iniquos , calcar depois com vossos sacrilegos pés , para que nem memoria delles existisse? Oh quaō grande foi a vossa estupidez, e ingratidaō !
Mil , e mil vezes feliz , adorado Monarcha , que reinando sobre taō nobre gente , hides ver desterrados do pé do vosso Throno a mentira , a calumnia , a traiçaō , a lisonja , e em fim todas as furias que do inferno se tinhaō taō descaradamente conjurado em atacar vossa virtude , vos-Página:Dialogo entre dous mortos.pdf/11
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