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DOM JOAO VI NO BRAZIL 975

nao se sabe bem donde, de Hespanhoes do Prata, fugidos a guerra civil, e de marinheiros estrangeiros, inglezes sobre- tudo, desembarcados dos numerosos vasos de guerra e navios mercantes. Entre os nacionaes da melhor classe a vista era interessante da variedade de modas, espelho da variedade de opinioes, trajando uns a antiga, de chapeo armado e espadim. outros a ingleza, sem cabelleira, de meias botas, longa sobre- casaca e chapeo de castor.

A nota popular era entretanto a mais divertida sempre. Um dos folguedos mais animados dos tempos coloniaes costu- mava ser, no sabbado santo, a queima do Judas, representado por uma figura grotesca, cavalgada pelo diabo em pessoa e que, recheada de bombas, se fazia explodir e se despedagava ao romper da alleluia, por entre o enthusiasmo da multidao.

Depois da chegada da corte, este divertimento ruidoso foi prohibido para evitar ajuntamentos que por muita jovia- lidade se podiam facilmente tornar desordeiros. E bem avi- sado andou o Intendente geral da policia, pois que no sab bado santo de 1821, trez dias antes do embarque da corte para Lisboa, um magote compacto de arruaceiros enforcou e queimou em effigie a ceo descoberto, em vez do Judas tra- dicional, alguns personagens conspicuos da administragao, entre elles o proprio Intendente geral e o commandante mi- litar da policia. Com esta variante nos traidores immolados, recomegou alias o divertimento sem nada perder da sua po- pularidade.

Continuara porem a effectuar-se sob Dom Joao VI a conhecida mascarada do imperador do Espirito Santo, com que contrastava a tocante cerimonia do bodo aos presos, que nao eram entao sustentados pelo Estado mas tao so- mente pela caridade publica, atirando-lhes esmolns os tran-

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