Página:Echos de Pariz (1905).pdf/230

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papel enrolado á maneira d’um requerimento, saltou bruscamente, e como um gato, sobre o rebordo do landeau, tocou no peito do presidente com as flôres ou com o papel. O maire de Lyão, sentado em frente de Carnot, ainda atirou, com o punho, uma pancada á cabeça do homem, que fugira, e que alguem na turba immediatamente filara, por instincto, como um ladrão. Tanto o maire de Lyão como aquelles mais proximos, que tinham entrevisto n’um relance o salto mudo e felino, pensaram que o homem se arremessava sobre o presidente para lhe arrancar e lhe roubar a placa de diamantes da Legião de Honra! E esta ideia, a primeira, como a mais natural, que a todos acudiu, perfeitamente define o presidente da Republica. Carnot era d’esses homens que se não suppõe que possam ser accommettidos — senão para serem roubados.

Elle não tinha inimigos. Não tinha mesmo adversarios — porque não representava um partido e muito menos um principio. A Constituição reduzira a sua auctoridade a uma sombra incerta e tenue; e essa mesma parcella de auctoridade elle a exerceu sempre com uma reserva, que a muitos parecia indifferença, e a outros nullidade. Carnot passou a sua presidencia constantemente torturado e peiado pelos escrupulos pungentes da Legalidade. De certo tinha os seus gostos e as suas preferencias — mas eram preferencias de homens por homens, e nunca por ideias. Estas mesmas preferencias por estadistas do seu typo, discreto e neutro, como Mr. Loubet, Tirard e outros, tantas ve-