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entre um inglez e um portuguez que nāo sabem a lingua um do outro, é difficilimo o colloquio de modo que se entendam, e dāo-se equivocos extravagantes, nāo obstante o subsidio dos gestos e signaes, o que nāo será entre homem civilisado e indio do matto ? O indio tem modos de vida e pensares differentes dos do homem civilisado e vice-versa; á um sāo inteiramente desconhecidas cousas que o outro suppōe que todo o mundo sabe. Só dahi quantos equivocos nāo resultarāo?
Nem tanto será preciso. Supponha-se que queiram apenas tratar das cousas mais geraes que necessariamente têm uma expressão na linguagem, por exemplo das partes do corpo humano, e que se pergunte por gestos ao indio como é que elle chama a cabeça. Elle poderá responder com dicçāo de sua lingua minha cabeça ou tua cabeça ou cabeça delle conforme o objecto designado, apontado pelo gesto, mas nunca ou quasi nunca cabeça simplesmente. Nos vocabularios é frequente acharem-se phrases em vez de vocabulos; é preciso já certo desenvolvimento e cultura para isolar das phrases as partes que a compōem, e perguntando-se ao indio como é que elle diz matar elle responderá eu mato ou ainda mais complexamente eu mato a cobra. Com um exemplo do glossaria de Martius tornar-se-ha sensivel o que ha de vago nestas proposições. No dialectus vulgaris a expresāo caput está traduzida por acanga, jacanga, canga ; no apiacá vem ai-acana, no cayowá está siakan, no omagua е campeva apparecem yakaih, yacae. Tudo isto que faz suppôr dialectos differentes se reduz á nada desde que se attende á correcçāo orthographica e tambem ao fallar do indio. Akang signica cabeça (caput), ij-akang a cabeça delle (illiuscaput), xe-ukang minha cabeça (meum