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Página:Euclides da Cunha - Os Sertões (1902).pdf/119

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formaram, vinha do sul, constituida pela mesma gente enthusiasta e energica das bandeiras.

Segundo o que se colhe em preciosas paginas de Pedro Taques,[1] foram numerosas as familias de S. Paulo que, em continuas migrações, procuraram aquelles rincões afastados e acredita-se, acceitando o conceito de um historiographo perspicaz, que «o valle de S. Francisco, já aliás muito povoado de paulistas e de seus descendentes desde o seculo XVII, tornou-se uma como colonia quasi exclusiva delles.»[2]

É natural por isto que Bartholomeu Bueno ao descobrir Goyaz visse, surprehendido, signaes evidentes de predecessores, anonymos pioneiros que alli tinham chegado, certo pelo levante, transmontando a serra de Paranan; e que, ao se reabrir em 1697 o cyclo mais notavel das pesquisas do ouro, nas agitadas e ruidosas vagas de immigrantes, que rolavam dos flancos orientaes da serra do Espinhaço ao thalweg do Rio das Velhas, passassem mais fortes talvez, talvez precedendo as demais no descobrimento das minas de Caethé, e sulcando-as de meio a meio, e avançando em direcção contraria como um refluxo promanado do norte, as turmas dos «Bahianos», termo que, como o de «Paulista», se tornara generico no abranger os povoadores septentrionaes.[3]

  1. Nobiliarchia Paulista.
  2. Dr. João Mendes de Almeida. Notas genealogicas, pag. 258.
  3. Diz o professor Orville Derby: «conforme Antonil as descobertas na região de Caethé foram anteriores ás do rio das Velhas ou de Sabará e neste caso é de presumir que foram feitas por mineiros de Ouro-Preto — passando para o oeste das cabeceiras do Santa Barbara, ou talvez, por bahianos vindos do Norte. A importancia que tiveram certos bahianos nos acontecimentos de 1709 e a referencia de Antonil ao capitão Luiz do Couto, que da Bahia foi para esta paragem com tres irmãos grandes mineiros» favorecem esta ultima hypothese, etc. — Os primeiros descobrimentos de Ouro em Minas Geraes.