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Página:Euclides da Cunha - Os Sertões (1902).pdf/123

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A extraordinaria empreza apenas se retrata, hoje, em raros documentos, escassos demais para lhe traçarem a continuidade. Os que existem, porém, são eloquentes para o caso especial que consideramos. Dizem, de modo inilludivel, que emquanto o negro se agitava na azafama do littoral, o indigena se fixava em aldeiamentos que se fariam cidades. A solicitude calculada do jesuita ou a rara abnegação dos capuchinhos e franciscanos, incorporavam as tribus á nossa vida nacional. E quando no alvorecer do seculo XVIII os paulistas irromperam em Pambú e na Jacobina, deram de vistas, surpresos, nas parochias que, alli, já centralisavam cabildas. O primeiro daquelles logares, vinte duas leguas a montante de Paulo Affonso, desde 1682 que se incorporara á administração da metropole. Um capuchinho dominava-o, desfazendo as dissenções tribaes e imperando, humillimo, sobre os morubichabas mansos. No segundo preponderava, igualmente exclusivo, o elemento indigena da velhissima missão do Sahy.

Geremoabo apparece, já em 1698, como julgado, o que permitte admittir-se-lhe origem muito mais remota. Ahi o elemento indigena se mesclava ligeiramente com o africano, o canhembora ao quilombola.[1]

Incomparavelmente mais animado do que hoje, o humilde lugarejo, desviava para si, não raro, a attenção de João de Lancastro, governador geral do Brazil, principalmente quando se exacerbavam as rivalidades dos chefes indios, munidos já com as patentes, perfeitamente legaes, de capitães. Em 1702, a primeira missão dos Franciscanos disciplina aquelles logares,

  1. Quilombola, negro foragido nos quilombos. Canhembora (cãnybora) indio fugido.
     

    É singular a identidade da fórma, significação e som destas palavras que surgindo, a primeira na Africa e a segunda no Brazil, destinam-se a caracterisar a mesma desdita de duas raças de origens tão afastadas!