Ir para o conteúdo

Página:Euclides da Cunha - Os Sertões (1902).pdf/287

Wikisource, a biblioteca livre
— 265 —

Dissera-o os invasores não veriam sequer as torres das egrejas sacrosantas.

Accendiam-se reconditos altares. E o riso dos soldados, e o estrepito das botas, percutindo as calçadas, e o vibrar dos clarins e os vivas enthusiasticos das ruas, coavam-se pelas paredes, penetravam as frestas das casas e iam perturbar, lá dentro, as preces abafadas dos fieis genuflexos...

No banquete, preparado na melhor vivenda, ao mesmo tempo se ostentava o mais simples e emocionante genero de oratoria — a eloquencia militar, esta eloquencia singular do soldado, que é tanto mais expressiva quanto é mais rude — feita de phrases sacudidas e breves, como as vozes de commando, e em que as palavras magicas — Patria, Gloria e Liberdade — dictas em todos os tons, são toda a materia prima dos periodos retumbantes.

Os rebeldes seriam debellados a ferro e fogo...

Como as rodas dos carros de Shiva, as rodas dos canhões Krupp, rodando pelas chapadas amplas, rodando pelas serranias altas, rodando pelos taboleiros bombeados, deixariam sulcos sanguinolentos.

Era preciso um grande exemplo e uma licção.

Os rudes impenitentes, os criminosos retardatarios, que tinham a gravissima culpa de um apego estupido ás mais antigas tradições, requeriam correctivo energico.

Era preciso que sahissem afinal da barbaria em que escandalisavam o nosso tempo, e entrassem repentinamente pela civilisação a dentro, a pranchadas.

O exemplo seria dado.

Era a convicção geral.

Dizia-o a despreoccupação e todo o arrebatamento feliz de uma população inteira; e a alegria ruidosa e vibrante dos officiaes e das praças; e toda aquella festa — alli — na vespera dos combates, a dous passos do sertão referto de emboscadas...