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Página:Euclides da Cunha - Os Sertões (1902).pdf/613

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Irritou. Era um virago perigoso. Não merecia o bemquerer dos triumphadores.

Ao sahir da barraca, um alferes e algumas praças seguraram-na.

Aquella mulher, aquelle demonio de anaguas, aquella bruxa agourentando a victoria proxima — foi degollada...

Poupavam-se as timidas, em geral consideradas trambolhos incommodos no acampamento, atravancando-o, como bruacas imprestaveis.

Era o caso de uma velha que se aboletara com dous netos de cerca de dez annos junto á vertente em que acampava o piquete de cavallaria.

Os pequenos, tolhiços, num definhamento absoluto, não andavam mais; tinham volvido a engatinhar. Choravam desapoderadamente, de fome.

E a avó, desesperada, esmolando pelas tendas os restos das marmitas, e correndo logo a acalental-os, aconchegando-lhes. dos corpos os frangalhos das camisas; e deixando-os outra vez, agitante, infatigavel no desvello, andando aqui, alli, á cata de uma blusa velha, de uma bolacha cahida do bolso dos soldados ou de um pouco d’agua; acurvada pelo soffrimento e pela edade, titubeando de um para outro lado, indo e vindo, cambeteante e sacudida sempre por uma tosse renitente, de tysica, — constringia os corações mais duros. Tinha o quer que fosse de um castigo; passava e repassava como a sombra impertinente de um remorso...

A degollação era, por isto, infinitamente mais pratica, dizia-se nuamente. Aquillo não era uma campanha, era uma xarqueada. Não era a acção severa das leis, era a vingança. Dente por dente. Naquelles ares pairava, ainda, a poeira de Moreira Cesar, queimado; devia-se queimar. Adeante, o arcabouço decapitado de Tamarindo; devia-se degollar. A repressão tinha dous — polos o incendio e a faca.