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Página:Euclides da Cunha - Os Sertões (1902).pdf/614

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Justificavam-se: o coronel Carlos Telles poupara certa vez um sertanejo aprisionado. A ferocidade dos sicarios retrahira-se deslumbrada pela alma generosa de um heroe...

Mas este pagara o deslise imperdoavel de ser bom. O jagunço que salvara conseguira fugir e dera-lhe o tiro que o removera do theatro da lucta. Acreditava-se nestas cousas. Inventavam-nas. Eram antecipados recursos absolutorios. Exaggeravam-se, calculadamente, outras: os martyrios dos amigos trucidados, cahidos nas tocaias traiçoeiras, ludibriados depois de cadaveres e postos como espantalhos á orla dos caminhos... A selvageria impiedosa amparava-se desta maneira á piedade pelos companheiros mortos. Vestia o luto chinez da purpura e, lavada em lagrymas, lavava-se em sangue.

Ademais, não havia temer-se o juizo tremendo do futuro.

A Historia não iria até alli.

Affeiçoara-se a ver a physionomia temerosa dos povos na ruinaria magestosa das cidades vastas, na imponencia soberana dos colyseus cyclopicos, nas gloriosas chacinas das batalhas classicas e na selvatiqueza epica das grandes invasões. Nada tinha que ver naquelle matadouro.

O sertão é o homizio. Quem lhe rompe as trilhas, ao divisar á beira da estrada a cruz sobre a cova do assassinado, não indaga do crime. Tira o chapéo, e passa.

E lá não chegaria, certo, a correcção dos poderes constituidos. O attentado era publico. Conhecia-o, em Monte-Santo, o principal representante do governo, e silenciara. Cohonestara-o com a indifferença culposa.

Desse modo a consciencia da impunidade, do mesmo passo fortalecida pelo anonymato da culpa e pela cumplicidade tacita dos unicos que podiam reprimil-a, amalgamou-se a todos os rancores accumulados, e arrojou, armada até aos dentes, em cima da misera sociedade sertaneja, a multidão criminosa e paga para matar.