Página:Flores do Mal (1924).pdf/170

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E com meu próprio ciume hei de saber talhar-te,
Ó Madona terrestre, um Manto inegualado,
Sóbrio e farto burel de Suspeitas forrado,
Que, como uma guarita, encerre o teu encanto;
Bordá-lo-ei depois co’as perlas do meu Pranto!
Teu Vestido será meu Desejo fremente,
Que ora sobe ora desce, inquieto, impaciente,
A baloiçar no monte, a repoisar no prado,
De beijos a vestir teu corpo albi-rosado.
Farei do meu Respeito os Chapins pequeninos
Com que heide preservar-te os pèsinhos divinos,
E onde se ha de imprimir, como em cera ou em neve,
A fórma do teu pé, tam pequeno e tam leve.
Mau grado o meu esforço e toda a minha arte,
Não podendo uma Lua argêntea colocar-te
Á laia de Escabelo, hei de a teus pés depor
A Serpente infernal, o monstro roedor
Que me lacera o peito, e tu has de-a pisar,
Como um verme soez, sob o teu calcanhar.
Verás então fulgir a luz dos Sonhos meus,
Como Círios no altar da Virgem mãe de Deus,
Iluminando o fundo azul do teu abrigo,
O teu vulto a envolver n’um doce olhar amigo!
E como te estremece o que ha de bom em mim,
Tudo transformarei em Nardo e Benjoim.
E em ondas de vapor, branca Serra nevada,
Ha de elevar-se a ti, minh’Alma atormentada.

E para completar teu papel de Maria,
E para conjugar o amor co’a barbaria,