Página:Flores do Mal (1924).pdf/22

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sem duvida, de que a phosphorescence de la pourriture attrahia Baudelaire, segundo a sua propria confissão, como um magnetismo invencivel.

Se o escopo de Delfim Guimarães ao publicar este livro foi o de nos mostrar a ductilidade das suas aptidões litterarias, conseguiu o exhuberantemente; penso, porém, que a maioria dos seus amigos e a quasi totalidade dos nossos homens de lettras hảo de lamentar que o tempo e a intelligencia despendidos o não fossem em obra sua original, ou, pelo menos, em obra que, ao contrario d’esta, nos não conduza ao anniquilamento moral, ao horror do Ser, ao gosto, ao appetite desenfreado do Nada.

No momento actual que a sociedade portugueza atravessa, um livro similhante atirado ao seio d’uma geração tão propicia a sugar-lhe o subtil veneno na estonteante dança das imagens metalicas e dos aromas embriagadores, na negação de toda a disciplina moral, na elegancia convencional dos conceitos que se synthetisam no conceito lapidar do taedium vitae, sob a forma moderna e bocejante do spleen, um livro d’estes seria um jacto de petroleo atirado para um incendio.

Do que nós, pelo contrario, precisamos é de obras sās, que encerrem ideias altas e d’ellas não sejam a negação propositada e sábia. Nós todos bem sabemos que a litteratura retrata, digamos, instinctivamente, uma epocha; as Flores do Mal e toda a obra litteraria franceza que se lhe tem seguido, salvo honrosas excepções, veem impregnadas d’aquella decadencia que vincou o 2.º imperio e em que se julgou substituir, pelo exhibicionismo da forma, a essencia, a doutrina, a inspiração.

É por isso que Victor Hugo permanece immortal!

O livro que acabo de lêr, com aquelle interesse que fa. cilmente concedemos a tudo quanto nos recorda os 18 annos, como obra benedictina de arranjos morphologicos, é perfeito. Delfim Guimarães conseguiu trasladar para ver. naculo as estrophes mais apreciadas d’esse supremo ar-