Página:Flores do Mal (1924).pdf/99

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Por detrás d’um rochedo, uma cadela, inquieta,
Com uivos estridentes,
Aguardava ocasião para na carne infecta
Ir aguçar os dentes...

— Ai! ter de me lembrar que has de ser semelhante
Á horrivel infecção,
Ó luz do meu olhar, o meu sol deslumbrante,
Minha ardente paixão!

Que assim tu has de ser, ó anjo que me encantas,
Quando o teu corpo inerme
Desfeito em podridão, sob a raiz das plantas,
Alimentar o verme!

Então, ó meu amor, dize á larva brutal
Que te beijar o rosto
Que eu guardei o contorno e a essência divinal
Do teu corpo gentil antes de decomposto!