Romeiro. E porque não, se ja me pêza a mim d'ella, se tanto me pêza ella a mim?— Amigo, ouve… Tu es meu amigo?
Telmo. Não sou?
Romeiro. Es: bem sei. E comtudo, vinte annos d'ausencia, e de conversação de novos amigos, fazem esquecer tanto os velhos!…—Mas tu es meu amigo. E se tu o não fôras, quem o sería?
Telmo. Senhor!
Romeiro. Eu não quiz acabar com isto, não quiz pôr em effeito a minha última resolução sem fallar comtigo, sem ouvir da tua bôcca…
Telmo. O que quereis que vos diga, senhor?—Eu…
Romeiro. Tu, bem sei que duvidaste sempre da minha morte, que não quizeste ceder a nenhuma evidência; não me admirou de ti, meu Telmo. Mas tambem não posso—Deus me ouve—não posso criminar ninguem porque o accreditásse: as provas eram de convencer todo o ânimo; so lhe podia resistir o coração. E aqui… coração que fosse meu… não havia outro.
Telmo. Sois injusto.
Romeiro. Bem sei o que queres dizer.—E é verdade isso? é verdade que por toda a parte me procuraram, que por toda a parte… ella mandou mensageiros, dinheiro?
Telmo. Como é certo estar Deus no ceu, como é verdade ser aquella a mais honrada e virtuosa dama que tem Portugal.
Romeiro. Basta: vai dizer-lhe que o peregrino era um impostor, que desappareceu, que ninguem mais houve novas d'elle; que tudo isto foi vil e grosseiro imbuste dos inimigos de… dos inimigos d'esse homem-que ella ama… E que socegue, que seja feliz.—Telmo, adeus!
Telmo. E eu heide mentir, senhor, eu heide renegar de vós, como ruim villão que não sou?
Romeiro. Hasde, porque eu te mando.
Telmo, em grande anciedade. Senhor, senhor, não tenteis a fidelidade do vosso servo. É que vós não sabeis… D. João, meu senhor, meu amo, meu filho, vós não sabeis…
Romeiro. O quê?
Telmo. Que ha aqui um anjo… uma outra filha minha, senhor, que eu também criei…
Romeiro. E a quem já queres mais que a mim: dize a verdade.
Telmo. Não m'o pergunteis.
Romeiro. Nem é preciso. Assim devia de ser. Tambem tu! Tiraram-me tudo. (Pausa)—E teem um filho elles?…—Eu não…—E mais, imagino… Oh passaram hoje peior noite do que