- Manuel. Oh Magdalena, Magdalena! não tenho mais nada que te dizer.—Crê-me, que t'o juro na presença de Deus: a nossa união, o nosso amor é impossivel.
- Jorge, continuando a conversação com Telmo, e levantando a voz com aspereza. É impossivel j'agora…—e sempre o devia ser.
- Magdalena, virando-se para Jorge. Tambem tu, Jorge!
- Jorge, virando-se para ella. Eu fallava com Telmo, minha irman.—(Para Telmo) Ide Telmo, ide onde vos disse, que sois mais preciso lá. (Falla-lhe ao ouvido; depois alto) Não m'a deixes um instante, ao menos até passar a hora fatal.
(Telmo sái com repugnancia, e rodeando para ver se chega aopé de Magdalena. Jorge, que o percebe, faz-lhe um signal imperioso; elle recúa, e finalmente se retira pelo fundo.)
SCENA VIII
MAGDALENA, MANUEL DE SOUSA, JORGE
- Magdalena. Jorge, meu irmão, meu bom Jorge, vós, que sois tam prudente e reflectido, não dais nenhum pêso ás minhas dúvidas?
- Jorge. Tomára eu ser tam feliz que podésse, querida irman.
- Magdalena*. Pois intendeis?…
- Manuel. Magdalena… senhora! Todas éstas coisas são ja indignas de nós.—Até hontem, a nossa desculpa, para com Deus e para com os homens, estava na boa fe e seguridade de nossas consciencias. Essa acabou. Para nós ja não ha senão éstas mortalhas, (tomando os habitos de cima da banca) e a sepultura d'um claustro.—A resolução que tomámos é a unica possivel; e ja não ha que voltar atrás… Ainda hontem fallavamos dos condes de Vimioso… Quem nos diria… oh incomprehensiveis mysterios de Deus!… Ánimo, e ponhamos os olhos n'aquella cruz!—Pela última vez, Magdalena… pela derradeira vez n'este mundo, querida… (Vai para a abraçar e recúa) Adeus, adeus! (Foge precipitadamente pela porta da esquerda.)
SCENA IX
MAGDALENA, JORGE, côro dos frades dentro.
- Magdalena*. Ouve, espera; uma so, uma so palavra: Manuel de Sousa!… (Toca o orgam dentro.)
- Côro*, dentro. De profundis clamavi ad te, Domine; Domine, exaudi vocem meam.
- Magdalena*, indo abraçar-se, com a cruz. Oh Deus, Senhor meu! pois ja, ja? nem mais um instante, meu Deus?—Cruz do meu Redemptor, oh cruz preciosa, refúgio d'infelizes, amparame tu, que me abandonaram todos n'este mundo, e ja não posso com as minhas desgraças… e estou feita um espectaculo de dor e d'espanto para o ceu e para a terra!—Tomae, Senhor, tomae