Página:GEHS - A familia em regimen communista - 1919 LCF.pdf/11

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veres. Tem mais direito sobre ellas, isto é, mais direito a guial-as e tratal-as quem mais as ama e mais se occupa dellas: e como, em regra, são os paes que, mais de que todos; amam os seus filhos, a elles compete principalmente o direito de prover ás necessidades destes. Nem neste ponto são para recear as contestacões, porque, si algum pae desnaturado ama pouco os seus filhos e delles não cuida, ficará contente si outros o desembaraçarem delles.

Si, por direito do pae sobre os filhos entende o direito de os maltratar, corromper e explorar, então claro está que nego absolutamente esse direito, e creio que nenhuma sociedade digna deste nome o reconheceria e soffreria.

AMBROSIO — Mas não vê que o confiar assim a responsabilidade da manutenção das crianças á collectividade provocaria tal augmento de população; que não haveria meios de viver para todos? E o senhor não quer ouvir falar em malthusianismo, diz que é uma coisa absurda.

JORGE — O que eu lhe disse noutro dia foi que é absurdo pretender que a miseria presente dependa do excesso de população e quer reparal-a com as praticas malthusianas. Mas reconheço a gravidade da questão da população e admitto que no futuro, quando a todo o nascimento de uma mulher fosse assegurado o sustento, a miseria poderia renascer por excesso real da população. Os homens emancipados e instruidos pensarão, quando o julgarem necessario, em pôr um limite á demasiado rapida multiplicação da especie; e accrescento que só pensarão nisso a sério quando, eliminados os monopolios, os privilegios, os obstaculos postos à producção pela avidez dos proprietarios e todas as causas sociaes da miseria, todos virem clara e evidentemente a necessidade de proporcionar o numero de viventes ás possibilidades da producção; bem como ao espaço disponivel. [1].



  1. — Já hoje se faz nesse sentido uma propaganda solidamente apoiada sobre razões de moral e hygiene, sobretudo. Numerosas ligas neo-malthusianas propagam a livre maternidade, baseando-se em que, não sendo correlativos nem identicos o poder prolifico e a necessidade sexual, se podem separar por meio da sciencia e da arte.