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Página:Graciliano Ramos - Caetés (1947).pdf/85

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caetés
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ontem estava arengando com o Neves por causa das materializações.

Falaram de espiritismo, de pessoas conhecidas que se desgarravam da Igreja. Aqui e ali apareciam tìmidamente alguns adeptos. Na opinião do dr. Liberato, eram êles os verdadeiros crentes: tinham uma convicção que faltava aos outros.

— Crentes? exclamou Pascoal. Então o Neves é crente?

— Com certeza. Não é o chefe dessa mixórdia?

— Um safado é o que êle é.

— E que tem isso? fêz o doutor.

Interrompeu-se, engolindo o pigarro. Isidoro Pi­nheiro endireitou-se, ia de certo defender o Neves, quan­do Nicolau Varejão entrou na sala:

— Espiritismo? É a única verdade que há neste mundo.

— Como é que o senhor sabe? perguntaram.

— Pelos sonhos. Coisa que eu sonho é um evange­lho. Não falha, nunca falhou. Assim que enviüvei... Nem gosto de pensar, é um caso triste. E aqui para nós: eu me lembro da minha última encarnação.

— O senhor se lembra... atalhou Pascoal.

— Positivamente. Sou reservado porque há muito incrédulo, mas juro, meto a mão no fogo.

— Extraordinário! bradou Isidoro Pinheiro, sério, oferecendo-lhe uma cadeira. O senhor era homem ou mulher?

Nicolau Varejão olhou-o por cima dos óculos de vidros rachados, sentou-se, franziu as narinas, disse em tom confidencial:

— Homem.

— Brasileiro?

— Brasileiro, carioca. Como os amigos não ignoram, lembrar-se a gente do que foi noutra vida é comum. E eu apelo aqui para o doutor.

— Certamente, confirmou o dr. Liberato. Vá con­tando.

— Pois lá vai. Eu era tipógrafo no Rio-de-Ja­neiro, um bom tipógrafo, mas naquele tempo a mi­nha vocação era para militar. Na guerra do Paraguai fui voluntário, entrei na dança e andei pelo sul quási até o fim da campanha. Como tinha vocação...

— Chegou a general?

— Não senhor, cheguei a sargento, na batalha de S. Bartolomeu. S. Bartolomeu ou S. Bonifácio. Não me recordo, uma batalha importante. Enfim cheguei a sargento. Ora, por