Excelente criatura. Depois que enviüvou, não consta que haja conhecido outro homem. Aqui pela hospedaria passam dezenas dêles. Nenhum lhe agrada. O italiano, robusto, sangüíneo e de bigodes, satisfaz-lhe plenamente as necessidades do corpo e da alma. Boa mulher. Deus a conserve por muitos anos.
IV
— ENTRE, respondi sem saber quem batia.
Evaristo Barroca entreabriu a porta de manso.
— Ia sair, seu Valério?
— Não senhor, cheguei agora.
— Vinha roubar-lhe dez minutos, disse êle com uns modos excessivamente corteses, de que não gosto. Mas se sou importuno...
— Importuno? Não senhor. Entre pra aí.
Retirei uma pilha de jornais da cadeira, abri a janela que dá para a rua:
— Então, que é que há?
Evaristo avançou com gravidade, pôs o chapéu e a bengala sôbre a mesa empoeirada, olhou com desconfiança a palha da cadeira e sentou-se, sem se recostar, com medo de sujar a roupa. Maneiras detestáveis.
Ia para seis anos que eu conhecia aquêle tipo, encontrava-o quási diàriamente. Horrível. Empertigava-se para largar trivialidades abjectas, e o pior é que só muito depois de as ter dito me vinha a compreensão de que aquilo não valia nada.
— Vamos lá, doutor. Que é que há? perguntei de novo.
— Há isto, respondeu o visitante. Primeiramente necessito a sua opinião a respeito de um assunto que requer minucioso exame.
— Assim de importância... ia eu interrompendo.
Mas Evaristo continuou, aprumado, com os olhos fixos em mim, movendo lentamente, num gesto de orador, a mão bem tratada, onde um rubi punha em evidência o seu grau de bacharel:
— Em segundo lugar venho solicitar-lhe um obséquio.
— Perfeitamente. Vamos ver.
— O senhor se dá com o Fortunato?
— O padeiro? Dou-me. O Fortunato é bom homem. Na opinião de padre Atanásio...