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Página:Graciliano Ramos - Caetés (1947).pdf/91

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caetés
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— Não, não é o padeiro. O Mesquita, o Fortunato Mesquita, prefeito. O senhor se dá com êle?

— Com o prefeito? Que tenho eu com o prefeito? Isso é política. Eu entendo de política?

— O Fortunato é exemplar. Como funcionário é um modêlo; como chefe de família, um espelho.

Afagou o queixo largo, ficou algum tempo em si­lêncio, esperando o efeito daquele açúcar todo. Depois tornou, e foi aí que percebi que êle tinha dito três vezes a mesma coisa.

— Não possui talvez inteligência muito lúcida, mas o coração é de ouro. O protector dos pobres, absolutamente desinteressado. Sem aludir à nobre parentela...

— Já sei. Êle diz que é bisneto de Matias de Al­buquerque, ou tataraneto. Vamos ao resto.

— Pois sim. Pareceu-me... (É sôbre isto que o consulto. Expresse-me o seu pensamento com franque­za.) Pareceu-me obra meritória demonstrar pùblicamen­te a gratidão do município...

— Ao Mesquita? Que fêz êle pelo município, dou­tor?

Evaristo recolheu-se um momento, disse com len­tidão:

— Tem feito pouco, mas sempre tem feito. E se o apoiarmos, o senhor compreende, se o estimularmos, fará muito mais. Foi por isso que tracei uns artiguetes... Sim, não falo em capacidade para administrar. Deixemos isto de parte. Mas os atributos morais, pondere, os atributos morais são de facto dignos de encômios. E aqui está o favor que venho pedir-lhe.

Meteu a mão no bôlso e entregou-me uns papéis:

— Eu desejava obter a publicação dos artigos no jornal do vigário. Mas não me posso dirigir a êle. Fo­ram intrigar-me: que sou ateu, livre pensador — calúnias. É um desaguisado que pretendo desfazer, pois nada me inspira mais respeito que o catolicismo. O papado, que instituïção, o papado! Eu tenciono...

— Espere lá, doutor. Elogio ao Mesquita? Não con­vém. O Mesquita é uma bêsta.

— Não senhor, é exagêro. Antes de tudo...

— Um quartau. Quando diz sim, balança a cabeça negativamente; quando diz não, afirma com a cabeça. Não há no mundo inteiro um sujeito mais burro. E o doutor vem cantar loas ao Mesquita? De mais a mais padre Atanásio é levado do diabo...

Porquê? Não seja irreflectido nos seus julga­mentos, senhor. Fale com o reverendo. Uma questão de interêsse geral!