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Página:Graciliano Ramos - Caetés (1947).pdf/96

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obras de graciliano ramos

— Diabo! exclamou Isidoro, supersticioso, estremecen­do. Não gosto de ouvir êstes amaldiçoados gritos. Justa­mente por cima da casa do Silvério, que está de cama, esta peste voar, rasgando mortalha.

Levantou a gola, arrepiado, baixou a voz:

— Pensou no que lhe disse ontem?

— Hem? Não me lembro. É o empréstimo?

Tínhamos chegado ao fim da rua de Baixo, estávamos em frente às balaüstradas do paredão do açude. Tomámos pela direita, deixámos atrás a pracinha.

— Não, não é o empréstimo. Que horas são?

Consultou o relógio da usina eléctrica:

— Só onze? Julguei que fôsse mais tarde. Vamos para diante, quebrar as pernas pelos buracos do Pemambuco-Novo.

Olhei a frontaria da casa de Adrião, fechada. Hesitei receoso.

— Não há ninguém, tudo deserto. Vamos dar um passeio, insinuou Isidoro.

Penetrámos cautelosamente no Pernambuco-Novo, o bairro das meretrizes.

— Não era ao empréstimo que eu me referia. Mas já que tocámos nisto, você falou aos homens?

— Esqueci, Pinheiro, respondi com acanhamento. Falo amanhã. Que nem sei se êles poderão. Muitas obrigações a pagar... Talvez não aceitem.

— E a hipoteca do sítio, criatura? Uma propriedade que me está em mais de cinco contos! Afinal se não fizer com êles, faço com outro.

Era um empréstimo que desejava contrair com os Teixeira, por meu intermédio, operação regular, com efeito; mas Teixeira & Irmão não tinham fundos suficientes para dedicar-se à agiotagem.

— Faço com outro, prosseguiu Isidoro, invisível nas trevas da rua. Faço com o banco, faço com o Monteiro. É um usurário, um ladrão, esfola a gente com juro de judeu, mas não recusa nunca, tem sempre dinheiro, é um excelente velho. E não recebo favor. Que diabo! Para uma transacção de um conto e quinhentos garantia de cinco contos!

Calou-se, amuado. Acendeu um cigarro. E, à luz do fósforo, surgiram à direita calçadas altas e desiguais. À es­querda, entre sombras confusas de arvoredos, a mancha negra do açude avultava. Formas vagas, cheiro de aguardente, in­júrias obscenas, sons de pífano.