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Página:Graciliano Ramos - Cahetés (1933).pdf/26

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GRACILIANO RAMOS

— Que informações preciosas sobre a historia do Brazil! opinou o Dr. Liberato.

— Que triumpho para o espiritismo! E que baque para as outras religiões! ajuntou Paschoal.

— Sem contar que a reputação do auctor garanti­ria a veracidade do facto, accrescentou Isidoro. A sua vida... Diga ahi um adjectivo, doutor.

— Impolluta...

— Impolluta... vá lá, vida impolluta. Que idade tem o senhor, seu Varejão?

— Sessenta, meu filho. Sessenta annos na corcun­da. Tenho muito Janeiro.

— Como! bradou o Dr. Liberato. Sessenta annos? Não é possivel. Setenta com trinta... Caso o senhor tenha morrido e nascido logo que voltou da Italia, não póde ter mais de vinte e seis. E se ainda viveu algum tempo e andou vagando no espaço... Não é por lá que vocês andam quando morrem? Se se calcular isso direito, o senhor está morto, seu Varejão.

Uma gargalhada estalou na sala. Nicolau Vare­jão, que ia pegar uma chicara de café, deixou pender a mão suja e embatucou. Depois, resentido:

— Então, pelo que vejo, não acreditam.

— Acreditar? Acreditamos, affirmou o doutor. Mas sessenta annos é que o senhor não tem.

Nicolau baixou o carão trigueiro, coberto de marcas de variola, ageitou os oculos, tomou o café e declarou com lealdade:

— Parece que me enganei. Não foi na guerra do Paraguay, foi noutra mais velha. Não houve outra an­tes? Pois foi nessa. Tinha graça eu esquecer o que me aconteceu no exercito! Eu até me chamava Cunha, o sargento Cunha. Está ahi uma prova.

Levantou-se e sahiu.

— Magnifico! exclamou Isidoro Pinheiro.

— E a filha é a herdeira mais rica da cidade, se a