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Página:Graciliano Ramos - Cahetés (1933).pdf/29

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CAHETÉS
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existiram, andavam nús e comiam gente. Li, na escola primaria, uns carapetões interessantes no Gonçalves Dias e no Alencar, mas já esqueci quasi tudo. Sorria-me, entretanto, a esperança de poder transformar esse ma­terial archaico numa brochura de cem a duzentas pa­ginas, cheia de lorotas em bom estylo, editada no Ramalho.

Corrigi os erros, puz um enfeite a mais na barriga dum caboclo, cortei dois adverbios — e passei meia hora com a penna suspensa. Nada. Paciencia! Quem esperou cinco annos póde esperar mais um dia. Atirei os papeis á gaveta.

Naquelle momento Adrião devia estar com o Mi­randa Nazareth defronte do taboleiro de xadrez.

Caciques! Que entendia eu de caciques? Melhor se­ria compor uma novella em que arrumasse padre Athanasio, o Dr. Liberato, Nicolau Varejão, o Pinheiro, D. Engracia. Mas como achar enredo, dispor os persona­gens, dar-lhes vida? Decididamente não tinha habilidade para a empresa: por mais que me esforçasse, só conseguiria garatujar uma narrativa embaciada e amorpha.

De repente imaginei o morubixaba pregando dois beijos na filha do pagé. Mas, reflectindo, comprehendi que era tolice. Um selvagem, no meu caso, não teria beijado Luiza: tel-a-ia provavelmente jogado para cima do piano, com dentadas e coices, se ella se fizesse arisca. Infelizmente não sou selvagem. E ali estava, mudan­do a roupa com desanimo, civilizado, triste, de cuecas.

— Porque foi que ella não contou aquillo?

Veio-me um pensamento agradavel. Talvez gostasse de mim. Era possivel. Olhei-me ao espelho. Tenho o nariz bem feito, os olhos azues, os dentes brancos, o cabello louro — vantagens. Que diabo! Se ella me pre­ferisse ao marido, não fazia mau negocio. E quando o velhote morresse, que aquelle trambolho não podia du-