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Página:Graciliano Ramos - Cahetés (1933).pdf/41

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CAHETÉS
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— Não era ao emprestimo que eu me referia. Mas já que tocámos nisto, você falou aos homens?

— Esqueci, Pinheiro, respondi com acanhamento. Falo amanhã. Que eu nem sei se elles poderão. Muitas obrigações a pagar... Talvez não acceitem.

— E a hypotheca do sitio, criatura? Uma propriedade que me está em mais de cinco contos! Afinal se não fizer com elles, faço com outro.

Era um emprestimo que desejava contrahir com os Teixeira, por meu intermedio, operação regular, com effeito; mas Teixeira & Irmão, não tinham fundos sufficientes para dedicar-se á agiotagem.

— Faço com outro, prosseguiu Isidoro, invisivel nas trevas da rua. Faço com o banco, faço com o Monteiro. E’ um usurário, um ladrão, esfola a gente com juro de judeu, mas não recusa nunca, tem sempre dinheiro, é um excellente velho. E não recebo favor. Que diabo! Para uma transacção de um conto e quinhentos garantia de cinco contos!

Calou-se, amuado. Accendeu um cigarro. E, á luz do phosphoro, surgiram á direita calçadas altas e desiguaes. A’ es­querda, entre sombras confusas de arvoredos, a mancha negra do açude avultava. Fórmas vagas, cheiro de aguardente, in­jurias obscenas, sons de pifano.

Subimos o alto dos Bodes. Isidoro Pinheiro deitou fora a ponta do cigarro, deu um trambolhão, agarrou-me um braço e berrou:

— Que lembrança a sua de vir passear, com uma noite assim, neste inferno!

Depois, calmo, já perto da igreja do Rosario, na indeci­sa claridade que vinha da rua de Cima:

— Boa caminhada, sim, senhor, isto por aqui é pittoresco. Que fim terá levado a Maria do Carmo? Gosto della. Se não fosse tão descarada... Emfim cada