Achava-me em pleno sonho, num camarote do Municipal, quando Adrião se abeirou da carteira:
— Diga-me cá, porque foi que você não appareceu mais lá em casa?
Abandonei a representação e voltei á realidade, com um nó na garganta. Vascolejei o cerebro á cata duma resposta.
— Vamos ver, continuou Adrião. Detesto mysterios. Fizeram-lhe alguma grosseria por lá? Se fizeram...
— Não, senhor, não fizeram. Não fazem. Que é que haviam de fazer?
— Então que sumiço foi esse? Eu perguntei á Luiza. Não sabe, ninguem sabe. Você gostava de conversar com ella essas embrulhadas.
Procurei mostrar-me tranquillo:
— Sempre me distinguiram com amabilidades que não mereço.
— Lambanças, homem. Deixe-se disso, fale direito, atalhou Adrião.
— Justamente. O senhor comprehende, eu gosto de escrevinhar... Assim de noite, quando a gente não tem somno...
— Já sei, já sei. Essas philosophias são prejudiciaes. E’ o padre Athanasio que lhe anda mettendo bobagens no quengo.
— Demais a mais a minha presença não serve de nada. Com franqueza...
— Ora! ora! ora! Vai para cinco annos que você está cá na casa, e só agora pensou nisso. Mas eu hei de decifrar essa charada. E diga ao Dr. Liberato que mude aquella receita. Não pude dormir hontem, com uma dor de cabeça dos peccados. Uma peste!
Retirou-se claudicando, a amaldiçoar os medicos. Fiquei atordoado, perguntando anciosamente ao cofre, á prensa, ao copiador, á machina de escrever, como me