Página:Há uma Gota de Sangue em Cada Poema.pdf/34

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Conseguiram vencer. O último urso brama,
e rebenta-lhe o crâneo o machado de pedra...
Já pascem, junto ao lar, domesticadas renas;
o homem pensa em plantar, e o terreno se redra...
Enfim, na encantação de amplas tardes serenas,
– canta no alqueive o rouxinol, a terra cheira –
ao convívio do bem-estar,
o homem pode mirar a companheira
e coloca-la num andor...
E quando, pêlas manhãs claras,
avoaçou a calhandra sôbre as searas,
houve searas também, plantadas pêlo amor.

— E o amor brilhou em cada lar.

Pêlo trabalho, pêlo engenho o homem procura
fortificar então sua ventura.
É só lançar a mão: e mais, e mais,
grassa na concha dos convales calmos
a poesia alourada dos trigais...
...É só lançar a voz: e sôbre o monte,
e sôbre o vale, e no horisonte,
e em toda parte lhe respondem outras vozes...
Sobem os fumos pêlo céu – que ao fogo
já se derretem os metais –
já se não temem animais ferozes;
tudo é progresso!... Então, reunidos no sopé
da cadeia, a cantar, como em glórias e salmos,
soltam aos ares o primeiro rôgo...

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