Página:Herculano, Alexandre, História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, Tomo II.pdf/120

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aqui vossa alteza um unico dia, que o tomarei por agravo, e morrerer de paixão». — Enfurecia-se com a importancia que davam na curia romana a Duarte da Paz, e, no seu orgulho de nobre, via uma offensa mortal em lh'o terem dado por competidor, consentindolhe que interviesse numa questão entre principes. — Mas estes — accrescentava D. Henrique, alludindo aos cardeais — não são principes, nem são nada. São mercadores e bofarinheiros, que não valem tres pretos[1]; homens sem educação, a quem só movem ou o medo ou o interesse temporal, porque o espiritual cousa é de que não curam.» — Em harmonia com a idéa que concebera ácerca da corte pontificia, tambem indicava os expedientes que D. João iii tinha a adoptar, concordando em parte com o arcebispo, mas sem aconselhar o systema de perfidia que o seu collega propunha. Na sua opinião, tinha elrei a escolher entre dous arbitrios : negar de todo a obediencia ao papa como Inglaterra[2], ou

  1. Reaes pretos: moeda de cobre miuda, que então corria.
  2. «Desobedecer muy inteiramente ao papa, como Inglaterra»: Carta de D. Henrique de Meneses de 17 de março de 1535, l. cit.