Página:Herculano, Alexandre, História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, Tomo II.pdf/310

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timos ao incremento do catholicismo, Roma sacrificasse o catholicismo a interesses ignobeis e mesquinhos. «Por cada cruzado que lá se possa ganhar com os conversos — dizia D. João iii —tem-se em Portugal perdido cem, e, todavia, sou vilmente calumniado de querer o sangue das minhas ovelhas»[1]. Todas as diligencias dos chnstãos-novos tinham unicamente por alvo retardarem o estabelecimento definitivo da Inquisição pelo tempo que lhes fosse necessario para porem a salvo corpos e fazendas. Dava então a entender que, se a corte de Roma, com tão extranho procedimento, desservia a causa de Deus, elle poderia, se não tractasse de reprimir o proprio despeito, fazer justiça por si, como bem lhe parecesse; resolução extrema, a que esperava não chegaria nunca pela consideração em que tinha a pessoa de Paulo iii. Vindo á questão de ser ou não inquisidor-mór o infante, mostrava-se altamente resentido da opinião que havia na curia, de que tanto mais suspeito devia ser o juiz supremo do tribunal da fé quanto mais seu parente proximo fosse. Era

  1. «e ysto tudo he como huum tão desavergonhado fengimento que eu queria degolar as minhas ovelhas»: Ibid. f. 39.