estradas que caminham por si mesmas. Para terem boas terras de cultura, visto que as das margens são sempre frescas e alem disso fertilizadas pelo humus durante as enchentes anuais.
— Isso mesmo. A casa, portanto, servia para livrar os homens das feras, dos raios do sol, das chuvas e das ventanias, das geadas e da neve e servia tambem para dar ás familias esse "á vontade" que tanto nos agrada. Quem está em sua casa está como quer; quem está fora de casa tem que estar como os outros querem. O maior encanto da casa é justamente essa intimidade — esse estar longe das vistas ferozes e mexeriqueiras dos vizinhos. Imaginem uma cidade em que as casas fossem de vidro bem transparente. Que horror não seria a vida lá dentro...
— Eu pintava logo as paredes com piche, para não dar o gosto á gentarada de fora, disse Emilia.
— Quer dizer que você restabelecia com o piche a intimidade que deve ter uma casa — e dessa vez não fazia nenhuma asneirinha... Pois foi essa intimidade da casa que tornou possivel a vida de familia, algumas bem felizes, como a nossa, com tia Nastacia fazendo quitutes lá na cozinha, com Quindim filosofando no quintal enquanto masca o capim, com o senhor marquês de Rabicó sempre farejando gulodices, com a Emilia a abrir e fechar a sua celebre torneirinha, comigo aqui a contar historias historicas e geograficas — e com vocês dois a aprenderem mil coisas brincando.
— A senhora esqueceu o visconde, vóvó! lembrou a menina.
— Sim, e com o visconde fazendo... o que mesmo? Que anda ele fazendo agora?
Narizinho cochichou ao ouvido de dona Benta o grande segredo: "O visconde está escrevendo as Memorias da Marquesa de Rabicó. Emilia dita e ele escreve, naquela letrinha toda cheia de sabuguices".
Dona Benta arregalou os olhos, pois aquilo era novidade grande. Em seguida voltou ao assunto.