Aquilo era alusão a Pedrinho, cujo martelo já estava desbeiçado de tanto prega-prega. Até a Emilia tinha o seu martelinho.
— Do martelo de pedra saiu o machado. Com certeza foi descoberta feita sem querer. Ao malhar com o martelo, a pedra lascou de bom jeito, por si mesma, virando lamina de machado, e com espanto o peludo viu que em vez daquele martelo amassar ou esmigalhar, como fazem todos os martelos, cortava... Ora, cortar era coisa utilissima para quem já fazia cabanas de madeira. Podia ele agora cortar os paus do mesmo tamanho. E o machado começou a aperfeiçoar-se. O peludo escolheu pedras proprias, que dessem bom corte. Encontrou o silex e outras. E veio vindo, veio vindo de aperfeiçoamento em aperfeiçoamento, até chegar ás modernas laminas Gillere que hoje se usam para cortar os fios de cabelo do rosto, vulgo barba.
E՚ facil imaginar a lentidão com que surgiram tais aperfeiçoamentos, e a alegria do primeiro peludo que, esfregando a pedra do seu machado contra outra, conseguiu avivar novamente o corte. Era a arte de amolar que nascia. Antes dela tinham de aproveitar o machado enquanto durasse o corte natural da pedra lascada: logo que o corte ficava rombudo, punham fora o machado e faziam outro. Imaginem a trabalheira!
E dessa pedra lascada que virou machado saiu a faca, a serra, a lança, a tesoura, a espada, a picareta, a enxada, o canivete — todos os inumeros instrumentos que têm cabo e cortam. Porisso, quando vocês, num museu, derem com aqueles toscos machados de pedra dos nossos antepassados peludos, tirem respeitosamente o chapeu.
— E eu que faço, vóvó, eu que não uso chapeu? perguntou a menina.
— Você tira o sapato, asneirou Emilia.
Ninguem achou graça e dona Benta continuou:
— A tesoura, por exemplo, que é a combinação de duas laminas opostas, custou muito a aparecer. Dizem os sabios