que os egipcios, gente de civilização tão adiantada, desconheciam a tesoura. Começam a aparecer em Roma, onde as usavam para cortar a grama dos jardins e tosar a lã dos carneiros. Antes disso sabe o que faziam? Arrancavam a lã dos coitadinhos.
— Que horror! Quer dizer que se os carneiros fossem mais agradecidos deviam ajoelhar-se diante de cada tesoura encontrada...
— Sim, porque a tesoura veio liberta-los duma horrivel tortura. Infelizmente, se esse par de facas opostas, chamado tesoura, veio libertar os carneiros dum suplicio, não aconteceu o mesmo para os proprios homens com a invenção dos instrumentos cortantes. Em vez de usa-los apenas para o que lhes era bom, transformaram-n՚os em instrumentos de guerra — e foi na propria carne humana que tais invenções mais trabalharam. Surgiram as espadas, as lanças, os cutelos, as adagas, os iatagãs, as cimitarras, as baionetas e outros crueis instrumentos de cortar a carne dos homens nas lutas. Veio a guilhotina, cuja função era cortar a cabeça dos que não pensavam de acordo com os dominantes do momento.
— Eu sempre tive horror ás facas, disse Narizinho — isto é, ás facas de ponta, porque as facas de mesa são até bem boazinhas. Para passar manteiga numa fatia de pão, nada melhor. Verdade é que quando muito amoladas elas tambem cortam o dedo da gente...
— A culpa não cabe á faca, minha filha, mas ao uso que fazemos dela — e o mesmo se dá com todas as invenções humanas. Prestam beneficios sem nome, quando bem empregadas; e tambem causam horrores sem nome, se mal empregadas. A dinamite, por exemplo. Que serviço não presta na demolição duma pedreira? E que horror não é quando jogada dum avião sobre uma cidade?
Infelizmente a estupidez ou maldade dos homens tem até aqui estado de cima, sobre a inteligencia e a bondade. A grande arte que ainda hoje os homens cultivam com maior