carinho é a arte de matar cientificamente. Se vocês compararem o que os povos modernos gastam no aperfeiçoamento da arte de matar com o que gastam na educação do povo e outras coisas de beneficio geral, hão de horrorizar-se. Os homens não fizeram progresso nenhum em materia de bondade e compreensão. Chegaram ao ponto de crucificar Jesus só porque Jesus queria implantar na terra o reino da bondade. A maldade ainda é a soberana absoluta neste grão de poeira que gira em redor do sol...
Mas deixemos isto. Vamos ver agora o que aconteceu com outra grande invenção dos peludos — a enxada.
— Acha a senhora que tambem a enxada seja uma grande invenção?
— Sem duvida, minha filha. E com certeza foi invenção feminina, porque naqueles tempos as mulheres tinham sobre si os trabalhos mais pesados. Eram as bestas de carga dos homens. Incumbia-lhes cuidar da casa, da comida, das plantações, de tudo que era penoso; e com certeza foi uma "genia" que, cansada de cavar a terra com as unhas, teve a ideia luminosa de botar cabo numa pedra cortante. Reparem que a diferença entre o machado e a enxada está apenas na posição da lamina. No machado a lamina tem o fio na mesma direção do cabo; na enxada tem o fio colocado verticalmente. Só isso. Mas foi preciso que surgisse uma "genia" para fazer essa modificação!
— Se a gente pudesse saber o nome dela... murmurou Narizinho.
— Havia de chamar-se Enxadia, lembrou Emilia. Enxadia da Silva.
Ninguem achou graça e dona Benta continuou:
— Pois essa mulher fez uma grande coisa. A enxada primitiva representou imenso progresso para a agricultura, e até hoje, em muitos paises, entre eles o nosso, a base da agricultura está na enxada. Se dum momento para outro todas as enxadas do Brasil se evaporassem misteriosamente, meses depois estariamos morrendo de fome.